Quando a Vida Pessoal inevitavelmente afeta o Trabalho: Uma Reflexão Pessoal Sobre Luto e Liderança

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Equilibrar vida pessoal e profissional, às vezes, parece um feito quase mágico. Fazemos de tudo para manter tudo de pé, mas nem sempre conseguimos — e essa é a realidade humana por trás de qualquer trajetória profissional.

Há uma semana, perdi minha mãe. Minha companheira de vida.
A mulher que, no dia em que nasci, chorou de medo de não viver o suficiente para me criar. O que ela nunca imaginou é que, mesmo criança, eu já a enxergava como uma rocha: sólida, presente, imensa. Ela era o muro que me protegia do mundo, ao mesmo tempo em que me ensinava, pouco a pouco, a construir o meu.

Passamos quase trinta anos lado a lado, enfrentando juntas desafios que teriam esmagado qualquer um de nós se estivéssemos sozinhas. Nosso vínculo sempre foi forte — mesmo sem abraços constantes ou grandes declarações. Meu amor sempre se manifestou pela presença, pela proteção. Ela, com sua delicadeza, adaptou-se ao meu jeito: roubava beijos, passava os dedos no meu cabelo enquanto caminhava pela casa.

Com o tempo, me tornei mais independente, mas nossa parceria permaneceu intacta. Até que, quase sem perceber, nossos papéis se inverteram: eu me tornei sua cuidadora. Eu era o muro, e ela era quem buscava abrigo.

Nunca fui de falar muito.
E assistir minha mãe enfraquecer — perder mobilidade, autonomia, dignidade — foi devastador. Ver sua dor, ouvir suas queixas, notar seu corpo cedendo… e ainda assim vê-la preocupada comigo, preocupada com o quanto eu me dedicava a ela.
Ela sabia.
Eu sabia.
Nós duas sabíamos o que estava por vir.
E mesmo assim, eu fiquei. Até o último instante.

Minha mãe morreu nos meus braços. Literalmente.
Ela reuniu sua última força, me abraçou, olhou nos meus olhos e disse: “Estou indo.”
Ainda tive tempo de beijar seu rosto antes que ela partisse.

Eu a vi morrer.
Vi outras pessoas tentando trazê-la de volta.
Mas Ercília Pérez, a flor-luz da minha vida, dissolveu-se no ar.

Por que escrever isso?
Porque esse momento abriu em mim uma reflexão profunda — sobre liderança, gestão, responsabilidade, e sobre o que significa manter tudo funcionando quando você mesma está em ruínas.

No fim, gestão não é só técnica.
Não é só metodologia, ferramentas, escopo e indicadores.
Gestão é — e sempre foi — profundamente humana.

É saber ouvir, perceber o silêncio, sustentar alguém quando necessário.
É ser multidisciplinar na vida e no trabalho — mesmo quando o chão desaparece.
Porque a vida invade o trabalho, e às vezes é o trabalho que nos mantém de pé.

Ao longo da minha trajetória como analista de sistemas e gestora de projetos, tive a sorte de trabalhar com líderes que entendiam esse lado humano.
Pessoas que lideravam não apenas com técnica, mas com empatia, atenção e integridade.
Aprendi com elas que é possível unir sensibilidade e força na mesma prática.

É claro, também vi exemplos de liderança que jamais seguirei — mas esses, sinceramente, nem merecem espaço.

Hoje, sinto orgulho:
da mãe extraordinária que tive;
dos líderes que me ensinaram com generosidade;
e da pessoa que me tornei — carregando um pedacinho de cada um deles.

Agora, enquanto esse ciclo tão duro e tão profundamente humano chega ao fim, começo outro.
Coração partido, mas reconstruindo.
Retomando lentamente as atividades que precisei pausar.
E me preparando para voltar ao mercado com mais força, mais clareza e um compromisso ainda maior com o que realmente importa.

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