Trabalhar com acervos históricos digitalizados é, muitas vezes, como atravessar um território cheio de vozes.
Vozes em português do século XIX, em italiano, em francês — cada uma vinda de um tempo, de um contexto, de um gesto intelectual. E todas elas, de certo modo, chegam até nós por meio de superfícies frágeis: páginas escurecidas, impressões irregulares, letras que o tempo quase apagou.
O digital não resolve essas fragilidades.
Mas nos dá outras formas de abordá-las.
Python como instrumento de escuta
Quando extraímos textos diretamente do idioma original usando Python, o gesto é menos técnico do que parece. É quase arqueológico: uma tentativa de resgatar fragmentos de discurso que sobreviveram em papel, tinta e pixel.
Esses fragmentos, uma vez convertidos em texto, pedem tradução — não apenas de língua, mas de cultura, de intenção, de época.
O multilinguismo sempre acompanhou a História da Arte.
O século XIX europeu é repleto de camadas linguísticas sobrepostas: tratados italianos, inventários franceses, descrições portuguesas, publicações científicas alemãs.
A tecnologia hoje apenas evidencia a complexidade que já existia.
A Torre de Babel revisitada
A imagem da Torre de Babel permanece atual:
a multiplicidade de línguas pode confundir, afastar, fragmentar.
Mas também pode revelar nuances, caminhos, encontros.
Cada idioma guarda um modo de olhar.
Uma palavra francesa carrega outras implicações históricas do que sua tradução portuguesa. Um verbo italiano descreve um gesto artístico de maneira que não existe em outras línguas.
Interpretar textos multilíngues é aceitar essa multiplicidade como parte da pesquisa.
Da Pedra de Roseta à tradução automática
Quando Champollion decifrou os hieróglifos egípcios comparando três sistemas de escrita, abriu-se uma brecha na história.
Hoje, nossas “Pedras de Roseta” são digitais: arquivos escaneados, OCR imperfeito, bases multilíngues cheias de irregularidades.
Python não faz o trabalho interpretativo por nós — mas ajuda a atravessar o ruído.
Ele permite unir fragmentos, aproximar camadas, transformar imagens em palavras e palavras em matéria para análise.
Ferramentas como googletrans-py39 aceleram a tradução inicial, não como substituta do olhar humano, mas como primeira passagem, um esboço.
Depois disso, o trabalho é nosso.
Humanidades Digitais como arqueologia do discurso
O uso de Python nas Humanidades Digitais amplia possibilidades de leitura:
- ver como um conceito aparece em três idiomas diferentes;
- observar como certas palavras mudam de sentido ao longo de um século;
- acompanhar a circulação de ideias em redes intelectuais transnacionais;
- perceber nuances que escapam ao olhar linear;
- reconstruir percursos históricos a partir de dados.
É uma arqueologia do discurso — não de objetos, mas de textos.
Evitar novas Babels
O trabalho digital não elimina as barreiras linguísticas.
Ele revela outras.
Mostra como cada idioma molda a maneira como entendemos o passado.
Mostra como a tradução é sempre interpretação.
E como, no meio disso tudo, ferramentas computacionais podem nos ajudar a caminhar sem perder a complexidade de vista.
Python, nesse sentido, não é apenas código:
é uma ponte entre tempos, linguagens e maneiras de ver o mundo.