Humanidades Digitais Não São Apenas Tecnologia

Imagem gerada por IA (DALL·E / OpenAI). Imagem gerada por IA (DALL·E / OpenAI).
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Pensar este campo apenas como tecnologias aplicadas às Humanidades pode ser um erro. Em muitos casos, o movimento acontece também no sentido inverso: são as próprias Humanidades que nos ajudam a compreender as tecnologias que criamos.

Sabemos que as Humanidades Digitais são o ponto de encontro entre as tecnologias computacionais e as disciplinas tradicionais das Humanidades. Bases de dados históricas, digitalização de arquivos, reconstruções virtuais, análise textual automatizada ou visualização de redes culturais passaram a compor um conjunto de práticas cada vez mais comum na investigação histórica, artística e literária.

Dentro dessa perspectiva, a tecnologia aparece sobretudo como ferramenta. O computador, os algoritmos ou as plataformas digitais seriam meios capazes de ampliar as possibilidades de investigação nas Humanidades, permitindo tratar grandes volumes de dados ou reconstruir contextos históricos com novas formas de visualização.

Essa definição, no entanto, parece incompleta — uma limitação que sempre me causou certo desconforto.

Afinal, as Humanidades Digitais são realmente apenas tecnologias aplicadas às Humanidades ou também se tratam de Humanidades aplicadas às tecnologias?


O humano nas máquinas

Primeiro, é preciso entender por que é tão comum confundir as inteligências artificiais mais recentes com algum tipo de criatura dotada de vontade e pensamento próprios.

Para isso, é útil olhar para um campo bastante familiar às Humanidades: o da visualidade e da história das representações humanas.

Ao longo da história, diferentes culturas produziram imagens, narrativas e objetos que tentavam reproduzir ou imaginar o ser humano — esculturas idealizadas, autômatos, criaturas artificiais da literatura e, mais recentemente, personagens da ficção científica.

Ao recorrer a esse campo, não estamos falando propriamente de tecnologia, mas da forma como a cultura humana aprendeu historicamente a representar a si mesma.

É justamente essa tradição de representações que ajuda a explicar por que tecnologias contemporâneas, como as inteligências artificiais, frequentemente são percebidas pelas pessoas como entidades dotadas de intenção, personalidade ou consciência.


Humanizando a tecnologia

Quando levamos essas representações a um grau elevado de antropomorfização, fazemos isso para humanizar a interação com a tecnologia.

Interfaces com rostos, vozes, assistentes virtuais com nomes próprios ou robôs com características humanas existem para aproximar o usuário da máquina, facilitar o uso e tornar a comunicação mais fluida e natural.

Isso é, em essência, Humanidades aplicadas às tecnologias.

Se em algum momento, entre profissionais de Tecnologia da Informação, tivemos a sensação de sermos deuses em um Olimpo, capazes de realizar maravilhas que tornavam outras áreas dependentes de nós, talvez fôssemos incapazes de perceber algo bastante simples: sem as Humanidades — e especialmente sem a visualidade — aquilo que produzíamos simplesmente não faria sentido algum.

Mas o inverso também não é verdadeiro.

As Humanidades, nos dias de hoje, tampouco se sustentam completamente sem tecnologia.

Então quem são realmente os deuses?

Quem serve a quem?


Muito mais antigas do que parecem

Pensar nas Humanidades Digitais apenas como tecnologias aplicadas às Humanidades pode ser um erro.

Talvez isso se deva a um pensamento conservador segundo o qual as tecnologias existem apenas para automatizar processos e dar suporte a outras áreas.

No entanto, ao procurar sair dessa zona de conforto e lançar um olhar mais atento à dinâmica desse campo de conhecimento — que, mesmo quarenta anos após a invenção do termo, permanece desconhecido, estranhado e até mesmo desprezado por muitos de nós — percebemos algo curioso.

As Humanidades Digitais existiam muito antes de receberem esse nome.

São muito mais antigas do que parecem.

A troca entre tecnologia e Humanidades sempre foi inevitável — e indispensável.

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