Mila, Carne Exótica em Exposição e o Estereótipo da Mulher Brasileira Vista do Exterior

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Mila entrou em algumas lojas de uma pequena cidade rural na Galícia, Espanha, pedindo ajuda desesperadamente. Fugiu sempre que alguém chamava a polícia. Horas depois, seu corpo foi encontrado dentro de um contêiner de lixo.

Poucos dias se passaram — e a notícia desapareceu.
Ela foi tratada apenas como “uma mulher de nacionalidade brasileira”.
Seu nome só veio à tona graças aos esforços de um coletivo feminista de Pontevedra, que se recusou a deixá-la cair no esquecimento.

À primeira vista, Mila foi mais uma vítima de violência num país estrangeiro.
Mas, olhando com mais cuidado, sua morte revela algo muito mais profundo:

👉 a forma como o corpo da mulher brasileira é visto, narrado e consumido fora do Brasil.
👉 o apagamento sistemático de identidades de mulheres imigrantes.
👉 a normalização da violência quando ela recai sobre corpos considerados “exóticos”, “sensuais”, “disponíveis”.

A mulher brasileira como objeto — um estereótipo exportado há décadas

A imagem da brasileira no exterior foi construída historicamente por:

  • hipersexualização na mídia;
  • carnaval como símbolo nacional;
  • publicidade que reforça corpos sempre nus ou seminus;
  • novelas exportadas para dezenas de países;
  • pornografia global que usa a palavra “Brazilian” como categoria;
  • turismo sexual amplamente divulgado durante os anos 1990 e 2000.

Esse imaginário atravessa fronteiras e se torna, para muitos estrangeiros, a única lente possível para enxergar qualquer mulher do país.

É nesse contexto que Mila — uma mulher real, com nome, história, origem — se torna apenas “uma brasileira”.
E, portanto, facilmente descartável.

Quando o exotismo apaga vidas

Em muitos países europeus, especialmente em regiões rurais, mulheres brasileiras enfrentam:

  • comentários sexualizados em espaços públicos;
  • insinuações constantes sobre seus corpos;
  • assédio naturalizado;
  • incredulidade diante de denúncias;
  • estigma velado de “mulher quente”, “mulher fácil”, “mulher disponível”;
  • desconfiança institucional.

Esses estereótipos não são apenas ofensivos —
eles matam.

Eles contribuem para:

  • menor empatia em casos de violência;
  • menor mobilização social;
  • menor cobertura da mídia;
  • investigação mais lenta;
  • responsabilização parcial da vítima;
  • narrativas que justificam ou minimizam o ocorrido.

A morte de Mila ecoou tão pouco porque, para muita gente, seu corpo já estava rotulado antes mesmo de ser encontrado.

Quando o feminicídio se mistura ao imaginário colonial

A história de Mila não pode ser lida isoladamente.
É parte de um padrão: o encontro entre machismo, xenofobia e colonialidade.

Mulheres brasileiras — especialmente negras, pardas e indígenas — carregam no exterior uma marca histórica: a sexualização imposta desde o período colonial, perpetuada pelas elites, reforçada pela mídia, consumida como entretenimento.

E quando essas mulheres migram, essa marca viaja com elas.

Não importa seu caráter, seu trabalho, sua classe, sua trajetória.
Para muitos, o corpo vem antes da pessoa.

O silêncio como segunda morte

Sem nome, sem rosto, sem história:
assim a imprensa tentou contar o caso.

Mas o apagamento também é violência.

É por isso que coletivos feministas e migrantes fizeram questão de restituir a Mila aquilo que o discurso institucional tentou negar:

  • sua identidade,
  • sua dignidade,
  • seu lugar no mundo,
  • sua memória.

Porque quando o sistema apaga um nome, ele diz ao mundo que aquela vida não importa.

Mila importa — e sua história denuncia muito mais que um crime

Sua morte expõe:

  • a fragilidade das redes de apoio a mulheres imigrantes;
  • o peso mortal de estereótipos sobre mulheres brasileiras;
  • a desumanização de corpos femininos rotulados como “exóticos”;
  • a violência institucional que reduz vítimas a nacionalidades;
  • a negligência histórica com mulheres latino-americanas na Europa.

Mila não deveria ter sido invisível em vida, e muito menos na morte.

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