Entre todas as ferramentas de IA generativa existentes hoje, há uma categoria que sempre me desperta curiosidade: aquelas capazes de transformar um simples sketch em uma ilustração completa, com cores, textura e atmosfera.
Não utilizo essas ferramentas para finalizar minhas próprias obras — e provavelmente nunca usarei —, mas descobri que elas têm um valor imenso na fase de experimentação. Servem para testar paletas de cores, explorar atmosferas, buscar possíveis leituras visuais e até entender como diferentes estilos dialogam com o meu traço.
Nos últimos meses, iniciei dois projetos pessoais que exigem justamente esse tipo de exploração visual. Como não disponho de muito tempo para me dedicar exclusivamente à arte, a IA acabou se tornando uma ferramenta preciosa para avançar nas decisões estéticas antes de ir para a mesa de desenho.
Não vou mencionar aqui qual software ou plataforma utilizei — não se trata de fazer propaganda, mas de refletir sobre o processo.
Comecei os testes a partir de um dos meus próprios sketches:

Matinta Perê (2024)
O desenho original não tinha nenhuma indicação de cor, e eu não forneci nenhum prompt explicando quem é a personagem ou o que cada elemento representa. Toda a interpretação — linhas, volumes, elementos narrativos — foi feita exclusivamente pela IA.
O processo todo levou cerca de cinco minutos: subir a imagem, escolher um estilo, gerar quatro versões e selecionar as duas que mais conversavam com a minha proposta.
Claro que usei um sketch limpo, em alta resolução, com linhas marcadas. Imaginei desde o início que os traços de lápis mais leves desapareceriam, e foi exatamente o que aconteceu.
Os resultados ficaram impressionantes em alguns aspectos — e problemáticos em outros.


Quem conhece a lenda da Matinta Perê sabe que sua pele deveria ser mais escura, com tons avermelhados, evocando uma figura de origem indígena brasileira. A IA, porém, interpretou a personagem com uma estética mais europeia. Além disso, ignorou completamente a lua no céu, transformando uma cena noturna em algo que lembra o amanhecer.
É justamente isso que mostra por que a IA ainda não deve ser usada para finalizar uma obra artística: ela não compreende simbolismo, contexto, cultura ou intenção narrativa.
Por outro lado, é muito claro o quanto ela pode ser útil para:
- testar atmosferas;
- visualizar combinações de cor;
- estudar texturas;
- imaginar possíveis acabamentos;
- expandir aquilo que o sketch apenas sugere.
No meu caso, os testes geraram ideias que provavelmente eu não teria considerado sozinha. Gostei especialmente do brilho no interior do manto e da proposta de nuvem na segunda imagem, assim como das cores da roupa na primeira. Agora, com essas referências em mente, posso voltar à minha mesa de desenho sabendo melhor quais materiais usar, que paleta priorizar e qual atmosfera quero alcançar.
A IA não substitui o gesto, não entende a narrativa, não sente a personagem.
Mas ela pode abrir caminhos — e, para mim, isso já é o suficiente.